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Instalação performática celebra os costumes e a cultura popular do interior da Bahia

ieda_oliveira_img2“Atenção, atenção! O próximo prêmio será incrível: um porta-jóias de porcelana com detalhes em ouro, onde você poderá guardar todas as suas jóias… quem será o premiado? Atenção, atenção, vamos lá… solta a preá!”

Assim Iêda Oliveira - num conjunto rosa choque, frufru da Avenida Sete e plumas na cabeça de cor idêntica - transformou a Galeria Canizares (Escola de Belas Artes da UFBA) numa verdadeira quermesse do interior. “A sorte é cega - uma exposição performática”, lia-se na entrada, onde o visitante podia também obter algumas folhas de arruda contra o mau olhado.

Qual foi a última vez que você foi a uma vernissage para ver todo o público gritando, excitado, em contagem regressiva, quatro, três, dois, um, à espera de que a preá escolhesse a casa de seu número? Os prêmios eram variados, do frango assado com farofa ao leite de rosas, passando (bem passado!) pelo ferro de passar roupa. E havia quem ganhasse duas vezes. Marmelada, era o que se gritava. Alguém subornara a preá.

A exposição, que abriu no dia 5 de maio, é resultado da pesquisa realizada por Ieda no mestrado em Artes Visuais. Imperdível, a menos que você já tenha perdido. Quem for agora, vai chegar no fim da feira, pois o raid das moças já acabou, os bichos de pelúcia foram sorteados e não vai ter mais biscoito paciência dissolvido na boca com suco de maracujá.  Mas poderá ver o vídeo documentando as performances de rua, e tirar sua sorte numa flor, que há quem diga que só pode se abrir e ler à meia-noite de São João.

E, como a sorte é cega, você ainda poderá conferir a entrevista a seguir:

Circuitos - Sua exposição performática retoma uma memória coletiva muito específica e rica em identidade e tradições que vêm se perdendo diante de uma sociedade globalizada. O que isso significa para você?

Ieda Oliveira - A ideia é resgatar essas ações que aconteciam realmente no interior, em festa de padroeiros. Os jogos e sorteios são muito utilizados nas festas religiosas. Geralmente muitos prêmios são doados por fazendeiros e comerciantes em prol da paróquia. O jogo da preá, por exemplo, desde criança eu participava dessas rodadas. Tive a sorte de ganhar dois prêmios: uma caneca de louça escrito ‘Boa Sorte’ e uma máquina de costura Vigorelli. No jogo da preá, geralmente havia prêmios de valor inferior aos das rifas, como canecas, latas de goiabada… bugingangas de uma forma geral. As rifas eram prêmios mais importantes, causando alvoroço: novilhas, éguas, para depois arrecadar dinheiro para a paróquia.  No caso das sortes (flores de papel de seda que vêm com uns versinhos no papel com duas faces, uma para o homem e a outra para a mulher), são configuradas na noite de São João. Retomar esses costumes que não acontecem mais é muito importante, porque eu me sinto lá novamente. E também dar oportunidade a outras pessoas de estarem lá e vivenciarem esses momentos lúdicos em que podemos nos entregar inteiramente à sorte. Nesses jogos, não dependemos de treinos, esforços físicos, somos simplesmente entregues ao destino, ao contrário do futebol e de outros tipos de jogos que exigem treinamento do participante.

A sorte é cega? Por quê? Geralmente se diz que a “justiça é cega”.  Você quis fazer alguma referência a essa expressão?

Não. Nenhum paralelo com a questão da justiça. ‘A sorte é cega’ é um ditado comum também, utilizado pelas casas lotéricas para atrair os participantes - um local em que entram pessoas de todas as classes sociais para fazer uma fezinha. É um tipo de jogo que coloca todo mundo no mesmo patamar, como os jogos de sorte e azar. A cada rodada do jogo da preá, todos ficam nivelados, com iguais chances de ganhar e perder.

Como foi realizar essas performances na rua? Qual a diferença entre a reação das pessoas na rua e na galeria?

Teve uma grande diferença. Na rua, não convidei nenhuma pessoa conhecida para estar presente. E era um trabalho realizado pensando no povo da rua, passantes, pessoas que trabalham nos arredores da região. Qualquer um podia interagir com meu trabalho, que misturava várias linguagens: a pintura, porque redimensionei uma cartela de rifa ‘raid das moças’ em uma tela de 2,30 x 1,20, a intervenção urbana, por levar esse trabalho para a Praça da Piedade, a instalação. Todas essas linguagens resultam no vídeo, documentando o trabalho. As pessoas que se aproximavam eram pessoas simples que estavam a fim de se entregar à sorte e ganhar o grande prêmio, que era uma bicicleta. Muitas dessas pessoas já têm o hábito de interagir com outras ações que acontecem na rua, por estarem tão próximas dela. Ações, por exemplo, como a de homens que vendem remédios para combater todos os tipos de vermes, homens que fazem truques com jogos de dados e até de fanáticos religiosos, que atraem grande platéia. Já na galeria, é um público mais específico, que recebe um convite, na maioria das vezes com data e horário. Muitas pessoas que vêm, é porque têm um certo interesse em arte. Na Piedade, todos estavam mais interessados no prêmio, poucos perguntavam o que era aquilo. E quando eu explicava que era um trabalho de arte, elas me olhavam com cada olho! Como em todo jogo, houve um sortudo, que foi um camelô chamado Armando, que ganhou a bicicleta. E houve a decepção dos que não ganharam, e a tristeza de quem não pôde assinar a rifa, porque chegou atrasado. Tanto para a rua quanto para a galeria, aluguei um modelito específico, me caracterizando num conjunto de paetê rosa e me transformando num personagem, que dirigia as jogadas.

O que você acha da produção artística de Salvador? O que falta para que ela se torne mais expressiva?

Acho que os artistas estão lutando para mostrar seus trabalhos aqui, e também em outros lugares, apesar das dificuldades que todos colocam. Quando a gente se entrega à arte, não tem mais volta. Quando se entrega verdadeiramente, porque há pessoas que fazem algo e desistem.

Se você fosse ganhar um prêmio no jogo da preá, que prêmio gostaria de ganhar, e por quê?

Uma caixa de sabonete alma de flores, para tomar banho várias vezes por dia e ficar perfumada, relembrando o cheiro da casa dos meus avós.

***

Ieda Oliveira nasceu em 1969 em Santo Antônio de Jesus, e vive e trabalha em Salvador - BA. Mestre em Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da UFBA, já participou de várias residências artísticas e mostras nacionais e internacionais, como a 26ª Bienal Internacional de São Paulo e a III Bienal do Mercosul.  Saiba mais no blog da artista.

Entrevista à Marília Palmeira.

Seção: Destaques

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